Review | Dragon Khan: Testamos a nova aposta brasileira de RPG e Hack n’ Slash

O desenvolvimento nacional de jogos segue amadurecendo a passos largos, e a nova aposta do estúdio independente Evolution Game Studio é a prova clara dessa evolução. Dragon Khan já deixa a sua mensagem muito clara desde os seus primeiros minutos: este não é, de forma alguma, um projeto tímido ou de pequeno escopo.
Avaliamos a versão beta do jogo e mergulhamos em um universo próprio construído inteiramente em 3D, com uma forte escala épica, uma atmosfera densa e uma proposta robusta que desafia diretamente a ideia ultrapassada de que o mercado brasileiro se limita a criar apenas experiências simples ou fortemente estilizadas em pixel art.
O mundo esquecido e a fluidez do Hack n’ Slash
O cenário de Dragon Khan mergulha rapidamente o jogador em uma fantasia sombria, mística e envolvente. O mapa apresentado é fortemente marcado pela presença de ruínas antigas, resquícios de magia ancestral e a sensação constante e melancólica de um mundo que foi esquecido pelo tempo. A direção de arte da desenvolvedora trabalha de forma excelente esse clima imersivo, criando um grande espaço que convida à exploração e reforça o enorme peso da mitologia dracônica que sustenta a narrativa base.
A jogabilidade encontra o seu maior diferencial criativo no controle de Botu, um poderoso guerreiro híbrido que está dividido estruturalmente entre as essências de humano e dragão. Essa forte dualidade de DNA não serve apenas como um conceito visual atrativo, mas é a base fundamental de todo o sistema de combate do jogo. Fugindo de forma inteligente do caminho tradicional focado no uso de armas brancas pesadas e magias genéricas, o título aposta firmemente em ataques corporais selvagens e intensos: o uso de garras afiadas, mordidas ferozes, golpes mortais com o rabo e o uso de habilidades especiais se combinam em confrontos velozes e agressivos, imprimindo um ritmo de luta quase acrobático na tela.
Embora o tom sombrio do visual e a estrutura inicial dos mapas possam sugerir algo mais próximo do exigente gênero soulslike, Dragon Khan se posiciona na prática de forma muito mais enérgica como um verdadeiro hack n’ slash. A forte influência técnica de clássicos absolutos como Devil May Cry é bastante evidente, sendo notada especialmente na grande fluidez das lutas e na ampla liberdade oferecida ao jogador para experimentar combos aéreos. O moderno sistema de movimentação apenas reforça essa característica arcade, oferecendo o uso de dashes (esquivas rápidas), planadas longas e saltos duplos que tornam os cenários incrivelmente verticais e evitam com maestria uma progressão engessada ou punitiva.
As referências clássicas e o combate responsivo

As grandes inspirações literárias e visuais da equipe do estúdio Evolution Game Studio são muito claras e foram muito bem assimiladas na construção do mapa. Ecos de obras icônicas como Legacy of Kain: Soul Reaver e Darksiders aparecem de forma sutil, porém impactante, no tom geral da narrativa contada e no detalhado design ambiental do mundo. Apesar dessa bagagem conhecida pelo público veterano, o jogo consegue filtrar com perfeição essas referências antigas e transformá-las em algo incrivelmente próprio, sem nunca parecer uma simples soma preguiçosa de ideias e mecânicas que já são amplamente conhecidas no mercado.
O Beta do jogo consegue deixar ótimas impressões técnicas e artísticas. O combate brutal de corpo a corpo é extremamente responsivo, as pesadas animações dos golpes têm um excelente senso de peso virtual e existe um cuidado gráfico evidente com a construção da identidade visual dos inimigos e do herói principal. A bem-vinda presença de dublagem profissional e de legendas nativas em português brasileiro é um acerto inquestionável e fortalece ainda mais o vínculo emocional do produto com o público nacional.
Os problemas de desempenho e as promessas para o futuro

Por se tratar de uma versão beta, que ainda se encontra em um estágio inicial de produção, é fundamental ressaltar que o jogo segue enfrentando os típicos problemas inerentes ao ciclo de desenvolvimento. Diversos incômodos técnicos ficam evidentes durante a avaliação, como bugs ocasionais (incluindo falhas onde o inimigo continua causando danos de ataque mesmo após ser derrotado em combate), crashs inesperados e momentos gráficos inacabados. Além disso, a atual otimização carece de lapidação, apresentando grandes e perceptíveis quedas de desempenho (famosos drops de FPS) durante as jogatinas mais caóticas.
Apesar da necessidade clara de refinamento no motor de jogo e nas linhas de código, Dragon Khan consegue demonstrar uma confiança muito rara e louvável para os projetos desenvolvidos na América Latina. O título sabe exatamente o que quer ser em termos criativos e não demonstra nenhum medo de mirar nas posições mais altas do cenário global. A impressionante base técnica do projeto é sólida e altamente promissora, garantindo que os usuários prestem muita atenção aos futuros patches da demo, que já está disponível para testes virtuais via Steam. A equipe de desenvolvedores da EVO Game Studio (composta em parte por ex-funcionários do jogo Dolmen’) já confirmou os seus planos para lançar a versão final do projeto para os consoles da atual geração PlayStation 5, Xbox Series X/S e também para os computadores (PC).
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