REVIEW | Moonlighter 2: The Endless Vault

Existe um risco bastante comum em continuações: pegar uma ideia que funcionou, aumentar tudo e chamar isso de evolução.
Moonlighter 2: The Endless Vault poderia facilmente ter seguido esse caminho. O primeiro jogo, lançado em 29 de maio de 2018 pela Digital Sun, encontrou seu diferencial ao misturar RPG de ação, exploração de masmorras e gerenciamento de uma loja.
A sequência, porém, toma uma decisão mais complicada: ela não quer apenas ser maior. Quer reconstruir parte da fórmula.
O resultado é um jogo que abandona o pixel art do original em favor de uma apresentação 3D isométrica, amplia consideravelmente o combate, transforma o gerenciamento da mochila em um sistema mais profundo e coloca o elemento roguelite no centro da progressão. A estrutura básica continua a mesma — explorar, saquear, vender e investir —, mas quase todos os elementos ao redor foram redesenhados.
E é justamente aí que Moonlighter 2: The Endless Vault encontra sua identidade.
Um novo começo para Will
A história acompanha novamente Will, que precisa reconstruir sua vida como mercador e aventureiro. Desta vez, ele acaba em Tresna, uma vila ligada a uma aventura interdimensional e ao misterioso Moloch, um colecionador que tomou o controle do local.
A narrativa continua funcionando mais como combustível para a progressão do que como protagonista absoluta da experiência.
Isso não significa que a história seja irrelevante. O mundo de Tresna, seus habitantes e as missões ajudam a criar um senso de evolução para a cidade, enquanto o mistério envolvendo o Endless Vault dá contexto para a exploração. A versão 1.0 ainda adiciona novas missões, cutscenes e a conclusão da campanha principal.
Mas Moonlighter 2 não é um RPG interessado em contar uma grande história acima de tudo.
É um jogo sobre sistemas.
E quanto mais cedo isso fica claro, melhor funciona.

A grande força do jogo está no loop
A estrutura de Moonlighter 2 continua absurdamente simples de explicar:
explorar → conseguir relíquias → voltar para Tresna → vender → investir → ficar mais forte → explorar novamente.
O mérito da Digital Sun está em fazer com que essas etapas não pareçam atividades isoladas.
O loot encontrado na exploração alimenta diretamente a economia da loja. O dinheiro gerado pela loja financia equipamentos, melhorias e desenvolvimento da cidade. Essas melhorias tornam as próximas expedições mais eficientes. E expedições melhores geram itens melhores.
É um ciclo fechado de progressão.
A própria descrição oficial do jogo destaca essa relação entre exploração, gerenciamento da mochila, comércio e evolução da vila.
É também o motivo pelo qual Moonlighter 2 consegue ser tão eficiente em produzir o famoso “só mais uma run”.
Você termina uma expedição pensando em vender os itens.
Depois percebe que falta dinheiro para determinada melhoria.
Então volta para a masmorra.
Consegue um equipamento novo.
Testa.
Encontra uma relíquia interessante.
Resolve fazer outra tentativa.
Quando percebe, aquele ciclo que parecia repetitivo se transformou em uma rotina extremamente eficiente.

A mochila virou um jogo dentro do jogo
Se existe um sistema que representa melhor a evolução da sequência, é o gerenciamento de inventário.
No primeiro Moonlighter, organizar a mochila já era importante por causa do espaço limitado. Em The Endless Vault, esse conceito foi muito mais longe.
Agora, os objetos possuem diferentes níveis de qualidade e interagem entre si por meio de propriedades e maldições. A posição de uma relíquia dentro da mochila pode modificar seu valor ou ativar determinados efeitos.
Isso transforma aquilo que normalmente seria apenas uma tela de inventário em uma espécie de quebra-cabeça econômico.
Você não está simplesmente tentando carregar o maior número possível de itens.
Está tentando decidir:
- quais itens merecem espaço;
- quais podem aumentar a qualidade de outros;
- quais efeitos podem ser combinados;
- o que vale a pena levar;
- e em que momento é mais inteligente abandonar uma expedição.
Essa última decisão é especialmente importante porque o jogo trabalha constantemente com risco e recompensa.
Quanto mais fundo você vai, maior o potencial de lucro — mas também cresce a possibilidade de perder eficiência ou voltar para casa com menos do que poderia ter conseguido.
A mochila deixa de ser apenas uma limitação.
Ela vira parte da estratégia.
A morte ficou menos punitiva e mais inteligente
Uma mudança importante está justamente no tratamento das derrotas.
Em vez de transformar cada morte em uma perda absoluta de todo o progresso da expedição, o sistema reduz drasticamente o valor dos itens carregados, permitindo que eles ainda possam ser comercializados. A consequência é significativa, mas não elimina completamente o resultado da run.
Do ponto de vista de design, é uma solução interessante.
Uma das maiores ameaças de jogos com estrutura roguelite é fazer o jogador sentir que determinada tentativa simplesmente não serviu para nada.
Moonlighter 2 mantém a tensão da derrota sem necessariamente transformar cada erro em punição desproporcional.
Ao mesmo tempo, a versão 1.0 adiciona o Hardcore, que retoma uma abordagem muito mais severa: morrer significa perder todo o progresso relacionado aos relicários da expedição, aproximando a experiência da lógica mais rígida do primeiro jogo.
É uma boa forma de atender perfis diferentes de jogadores sem precisar criar jogos diferentes.
O combate finalmente acompanha a ambição da sequência
Talvez essa seja a outra grande transformação de Moonlighter 2.
O primeiro jogo funcionava bem, mas tinha uma estrutura de combate mais simples. A própria Digital Sun explicou que a mudança para o 3D permitiu trabalhar melhor com animações, telemetria dos golpes, variedade de inimigos e sistemas de combate mais dinâmicos.
Na prática, a sequência adiciona mais camadas ao sistema.
Will conta com ataques básicos, golpes especiais e esquiva, enquanto a mochila pode ser utilizada durante alguns confrontos para interagir com projéteis e inimigos. Há ainda armas de longo alcance, cuja munição é recuperada a partir da utilização de ataques físicos.
O resultado é um combate menos automático.
O jogador precisa observar distância, posicionamento, ritmo dos ataques e oportunidades para utilizar ferramentas diferentes.
Além disso, existem quatro categorias principais de armas e variações que podem modificar bastante a maneira como cada uma funciona.
A diferença aparece principalmente em encontros mais exigentes e nos chefes.
As batalhas contra chefões são mais elaboradas do que no original e conseguem funcionar como testes reais dos sistemas aprendidos durante a exploração.
Não estamos diante de um sistema de ação extremamente técnico ou de um hack and slash no nível de jogos dedicados exclusivamente ao combate.
Mas essa nem é a proposta.
O combate de Moonlighter 2 é bom porque ele não compete com o resto do jogo.
Ele existe para alimentar o loop econômico.

Muita coisa para explorar, mas nem tudo é necessário
A quantidade de sistemas de progressão em Moonlighter 2 é considerável.
Durante a campanha, o jogador desbloqueia armas, equipamentos, vantagens, comerciantes, melhorias para a vila, personalizações e novos recursos.
Durante o período de Early Access, o jogo recebeu novas armas, gadgets, armaduras, caminhos de vantagens, Boss Rush, novas áreas, novos comerciantes, melhorias na loja e sistemas adicionais.
A versão 1.0 ampliou novamente essa estrutura.
Entre as novidades estão:
Endless Weapon Aspects, novas armas, uma metralhadora como gadget, novo conjunto de armadura, nível 5 da loja, um novo espaço para Bloblet, novo caminho de vantagens baseado em bombas, Endless Vault VII, cosméticos e novos vendedores.
E depois da história principal existe ainda o Infinite Endless Vault, um modo de progressão praticamente contínua baseado em desafios cada vez mais difíceis e metas financeiras que precisam ser alcançadas dentro de uma única run.
Para quem gosta de otimização, isso representa uma quantidade enorme de espaço para experimentar builds.
Para quem prefere uma progressão mais limpa, pode ser informação demais.
Esse é um dos poucos momentos em que Moonlighter 2 parece querer ser maior simplesmente porque pode.
O salto para o 3D
Essa era provavelmente a maior pergunta antes do lançamento.
O visual pixelado do primeiro Moonlighter tinha personalidade própria.
Trocar isso por modelos tridimensionais poderia facilmente destruir parte da identidade da série.
Não aconteceu.
A estética 3D mantém uma direção artística estilizada, com cenários isométricos coloridos, personagens expressivos e ambientes que conseguem misturar fantasia, tecnologia e ficção científica.
O principal benefício não é simplesmente “ter gráficos melhores”.
É poder trabalhar com:
animações mais fluidas, mais variedade visual, efeitos de combate mais elaborados e espaços mais detalhados.
A mudança, portanto, não é apenas estética.
Ela está ligada ao próprio design do jogo.
Esse é um ponto importante porque Moonlighter 2 não parece ter mudado para o 3D apenas para parecer moderno.
A mudança ajuda a sustentar as decisões mecânicas da sequência.
O trabalho visual é um dos maiores acertos do projeto.
Os diferentes biomas possuem identidades próprias e ajudam a evitar a sensação de que o jogador está atravessando repetidamente os mesmos ambientes.
Ao mesmo tempo, nem tudo é igualmente impressionante.
Algumas análises apontaram problemas com texturas, serrilhados e acabamento visual em determinados elementos, principalmente quando o jogo é observado com mais atenção.
Isso não destrói a identidade visual.
Mas mostra que a transição para o 3D trouxe uma consequência inevitável: agora o jogo também precisa lidar com problemas técnicos e visuais que o estilo 2D do original naturalmente escondia.
Trilha sonora que acompanha a mudança
A trilha sonora é assinada por Christopher Larkin, conhecido principalmente pelo trabalho em Hollow Knight. Para Moonlighter 2, Larkin mistura folk, elementos eletrônicos e metal industrial.
A escolha combina bastante com a proposta do jogo.
A trilha precisa acompanhar ambientes radicalmente diferentes, transitando entre a atmosfera mais aconchegante de Tresna e regiões mais intensas das dimensões exploradas por Will.
O mérito aqui está menos em criar uma coleção de músicas que roubam completamente a cena e mais em construir uma identidade sonora coerente com cada espaço.
Em um jogo baseado em repetição, isso importa muito.
A música precisa ajudar a diferenciação entre uma run e outra sem se tornar cansativa depois de dezenas de horas.
O que Moonlighter 2 fez melhor que o primeiro?
A resposta mais objetiva está em três pontos.
Combate.
É mais rápido, variado e expressivo, com mais ferramentas e maior diversidade de possibilidades.
Inventário.
A mochila deixou de ser apenas uma limitação logística e se tornou um sistema estratégico baseado em qualidade, posição, maldições e sinergias.
Replay value.
O modelo roguelite é mais forte, existe maior variedade de equipamentos e o Infinite Endless Vault cria um objetivo natural para quem pretende continuar jogando depois da campanha.
É justamente por isso que a sequência consegue justificar sua existência.
Ela não está simplesmente repetindo o primeiro Moonlighter com mapas novos.
Ela está tentando resolver as limitações daquele conceito.
Moonlighter 2: The Endless Vault vale a pena?
Moonlighter 2: The Endless Vault é uma continuação mais ambiciosa do que sua premissa inicial faz parecer.
A Digital Sun pegou o conceito aparentemente simples de um aventureiro que luta à noite e vende suas descobertas durante o dia e transformou essa estrutura em um sistema muito mais complexo.
A grande sacada é que o jogo não precisa ser excelente em apenas uma categoria.
O combate não é o mais profundo do gênero.
A loja não é o simulador empresarial mais elaborado do mercado.
A narrativa não é o principal motivo para continuar.
E o visual 3D, embora bonito e bastante funcional, não impressiona tecnicamente em todos os momentos.
Mas a combinação dessas partes funciona.
É a interação entre elas que torna Moonlighter 2 especial.
Você luta porque precisa de loot.
Precisa de loot porque precisa vender.
Precisa vender porque quer evoluir.
Quer evoluir porque pretende chegar mais longe.
E quer chegar mais longe porque ainda existe outra relíquia interessante esperando na próxima sala.
Esse tipo de loop pode ser extremamente perigoso para quem gosta de jogos que prometem “só mais uma partida”.
Porque em Moonlighter 2, quase sempre existe uma razão para fazer mais uma.
Moonlighter 2: The Endless Vault: Moonlighter 2: The Endless Vault entende que uma boa sequência não precisa preservar tudo — precisa entender o que merece ser preservado. A Digital Sun mantém o coração do primeiro jogo, mas remodela justamente os sistemas que mais precisavam crescer. O resultado é um roguelite de ação com uma identidade própria, capaz de misturar dungeon crawler, gerenciamento, economia e RPG sem deixar que nenhuma dessas partes desapareça completamente. – Renan Corsi
0 comentário