Review | Beast of Reincarnation

Publicado por Paulo Reis em

O que exatamente a Game Freak estava preparando ao deixar de lado, pelo menos por um momento, o universo de Pokémon para apostar em uma experiência completamente diferente? Desde seu anúncio, Beast of Reincarnation chamou atenção por apresentar uma Game Freak que poucos conheciam.

A desenvolvedora deixou de lado o universo de criaturas e batalhas por turnos para apostar em um RPG de ação mais sério, melancólico e ambicioso.

Por isso, o jogo chegou cercado de expectativas enormes. A ideia de ver a desenvolvedora de Pokémon criando uma nova propriedade intelectual fora de sua principal franquia naturalmente gerou muito hype.

Com isso, parte do público passou a esperar algo gigantesco. Porém, depois de aproximadamente 15 horas de gameplay, minha impressão é que Beast of Reincarnation possui uma proposta bem mais específica.

O jogo tem boas ideias e uma identidade bastante própria. O combate funciona bem, a relação entre Emma e Koo é um dos grandes destaques, a ambientação chama atenção e a trilha sonora consegue criar momentos marcantes.

Por outro lado, algumas limitações começam a aparecer conforme avançamos. A falta de variedade de inimigos e a repetição de determinados padrões nos confrontos contra chefes são alguns dos principais problemas.

Beast of Reincarnation talvez não seja o grande RPG de ação que parte do público imaginou. Ainda assim, isso não significa que seja uma experiência ruim. Quando analisamos o jogo pelo que ele realmente se propõe a fazer, encontramos uma aventura bastante interessante.

História

Beast of Reincarnation se passa em um Japão completamente transformado, muitos séculos no futuro. A humanidade praticamente desapareceu diante de uma natureza que tomou conta do mundo.

Dessa forma, o cenário mistura elementos tradicionais japoneses com ficção científica e um ambiente pós-apocalíptico bastante peculiar.

No centro dessa história está Emma, uma jovem marcada pela chamada Blight. Essa condição fez com que ela se tornasse uma espécie de pária para a sociedade.

Ao seu lado está Koo, um enorme cão que não funciona apenas como seu companheiro. Além disso, ele também é uma peça fundamental para sua sobrevivência.

E talvez seja justamente a relação entre os dois que mais funciona durante as primeiras horas.

Emma é uma personagem mais silenciosa e distante. Koo, por outro lado, consegue transmitir muito através de suas ações.

Consequentemente, a sensação de acompanhar duas criaturas que dependem uma da outra para sobreviver funciona muito bem. Ela ajuda a criar o sentimento de solidão que o jogo tenta transmitir.

A história também trabalha bastante com o mistério. Em vez de entregar todas as respostas imediatamente, Beast of Reincarnation apresenta seu mundo aos poucos.

Com isso, o jogador passa a querer entender o que aconteceu com aquela sociedade. Também existe a curiosidade de descobrir como aquele mundo chegou ao estado em que se encontra.

O problema é que o ritmo da narrativa nem sempre acompanha a qualidade da ideia. Existem momentos em que a história consegue prender bastante a atenção.

Porém, também há situações em que a quantidade de diálogos e cenas acaba diminuindo um pouco o ritmo da aventura.

Ainda assim, depois dessas primeiras 15 horas, existe uma curiosidade genuína para descobrir onde essa história vai chegar. E isso já mostra que a Game Freak conseguiu criar um universo interessante o suficiente para despertar essa vontade de continuar jogando.

Gameplay

É aqui que Beast of Reincarnation provavelmente mais surpreende.

O combate possui uma forte inspiração em jogos de ação que exigem precisão. O parry é especialmente importante, já que observar os ataques dos inimigos e encontrar o momento certo para defender faz muita diferença. Por isso, não basta simplesmente apertar os botões até o adversário morrer. É preciso entender seus movimentos e reagir no momento certo.

Quando você consegue encaixar uma sequência de ataques depois de uma defesa bem executada, a sensação é realmente muito boa.

Koo também possui uma participação extremamente importante durante os combates. Ele não está ali apenas como um companheiro seguindo Emma pelo cenário.

Além disso, existe uma dinâmica entre os dois personagens que dá uma identidade própria ao combate. Conforme avançamos, também começamos a entender melhor como utilizar as habilidades de cada um.

Essa é uma das melhores ideias do jogo. A relação entre Emma e Koo não está presente apenas na história. Da mesma forma, ela também faz parte da própria gameplay.Além do combate corpo a corpo, Emma possui diferentes habilidades que são liberadas durante a progressão. Com isso, é possível adaptar um pouco a maneira como enfrentamos os inimigos.

Existe uma árvore de habilidades que cria algumas diferenças na forma de jogar. Ainda assim, o sistema está longe de ser um RPG extremamente complexo.A progressão funciona mais como uma forma de complementar o combate do que como um sistema gigantesco de builds.

Variedade de Inimigos e Chefes

Porém, é justamente no combate que aparece um dos problemas mais evidentes de Beast of Reincarnation: a falta de variedade dos inimigos.

Depois de algumas horas, determinados tipos de adversários começam a aparecer com bastante frequência. O problema não está necessariamente no funcionamento de cada inimigo.

A questão é a sensação de que estamos enfrentando variações das mesmas ameaças diversas vezes.

Isso fica ainda mais evidente nos confrontos contra alguns dos chefes principais. Existem batalhas que inicialmente parecem muito interessantes, principalmente pela apresentação e pelo tamanho dos inimigos.

Entretanto, alguns desses confrontos acabam utilizando determinados padrões de ataque repetidamente.

Depois que o jogador entende o movimento, parte do desafio deixa de estar em reagir ao chefe. Em vez disso, passamos simplesmente a esperar que ele repita determinado comportamento.

É uma situação que prejudica um pouco aquilo que deveria ser um dos pontos altos da experiência.

O sistema de combate possui uma base muito boa e o parry é bastante satisfatório. No entanto, seria necessário ter uma variedade maior de inimigos, padrões de ataque e situações de combate.

Dessa maneira, a experiência poderia se manter mais fresca durante toda a campanha.

A própria mecânica do jogo incentiva o jogador a aprender os movimentos dos adversários. Por isso, quando esses movimentos começam a se repetir demais, algo que inicialmente era uma questão de domínio acaba se transformando em repetição.

Koo

Se existe um personagem que merece uma seção própria, é Koo.

A relação entre Emma e Koo é provavelmente uma das maiores forças de Beast of Reincarnation. O jogo consegue fazer com que ele não pareça apenas uma ferramenta de gameplay.

Koo realmente parece ser o companheiro de Emma. Com o passar da jornada, essa relação também vai ganhando força.

Esse é um ponto que me pega particularmente. Eu gosto muito de animais, então histórias que trabalham essa relação entre humanos e animais acabam tendo um impacto muito maior para mim.

Existe algo especial na maneira como Beast of Reincarnation apresenta essa parceria. Koo não está ali apenas para ajudar Emma durante os combates.

Na verdade, ele representa companhia, lealdade e uma espécie de vínculo em um mundo onde praticamente tudo ao redor parece ter sido perdido.

Em um cenário tão destruído e isolado, ter alguém ao seu lado muda completamente a sensação da jornada. Além disso, o fato de esse alguém ser um animal torna essa relação ainda mais especial para mim.

São pequenos momentos entre os dois que conseguem transmitir carinho e cumplicidade. O jogo não precisa transformar tudo em grandes diálogos ou cenas dramáticas para conseguir isso.

Por consequência, essa relação faz com que Koo tenha um peso emocional muito maior do que eu esperava.

É difícil não criar carinho pelo personagem. Da mesma forma, também passamos a nos importar ainda mais com o que acontece com Emma durante a jornada.

E, obviamente, também existe a parte em que Koo simplesmente é um cachorro gigante extremamente bonito.

É difícil não gostar dele.

Direção Artistica e Gráficos

Visualmente, Beast of Reincarnation é um jogo bastante bonito. Isso fica ainda mais evidente quando os cenários se combinam com a iluminação e os efeitos de partículas.

A direção artística acaba sendo mais importante aqui do que simplesmente contar a quantidade de polígonos ou analisar a resolução das texturas.

O jogo possui uma identidade visual própria. Também consegue criar imagens marcantes, principalmente nos ambientes naturais e nas áreas em que a tecnologia antiga se mistura com a vegetação.

Ao mesmo tempo, existem momentos em que a qualidade visual não mantém o mesmo nível.

Algumas texturas e elementos do cenário podem parecer mais simples quando observados de perto. Isso fica mais evidente justamente porque o restante da direção artística é bastante ambicioso.

Ainda assim, quando tudo funciona ao mesmo tempo, Beast of Reincarnation consegue entregar algumas paisagens realmente impressionantes.

Trilha Sonora

A trilha sonora é um dos pontos que mais gostei durante essas primeiras 15 horas.

Beast of Reincarnation possui músicas que combinam muito bem com o clima do mundo. Em alguns momentos, a sonoridade também me lembrou bastante a maneira como Stellar Blade trabalha sua trilha.

Não estou dizendo que os dois jogos possuem músicas iguais ou seguem exatamente a mesma proposta.

Existe, porém, uma semelhança naquela mistura de melancolia, ambientação e momentos mais grandiosos. Principalmente quando o jogo quer transformar determinada cena ou batalha em algo mais marcante.

A trilha acompanha muito bem os momentos de exploração. Ela também sabe crescer quando o jogo precisa transmitir uma sensação maior de perigo ou grandiosidade.

Isso ajuda bastante na experiência.

Em um jogo que trabalha tanto com solidão, destruição e uma natureza que tomou conta do mundo, uma trilha sonora bem construída faz uma diferença enorme.

E aqui a Game Freak conseguiu acertar em cheio.

Os efeitos sonoros também ajudam durante os combates. O impacto dos golpes e os sons associados às defesas tornam os confrontos mais satisfatórios.

No conjunto, a trilha não é apenas um complemento. Ela ajuda bastante a construir a identidade de Beast of Reincarnation.

A Game Freak fora de pokémon

Talvez o aspecto mais interessante de Beast of Reincarnation seja justamente observar a Game Freak tentando fazer algo diferente.

Durante muitos anos, o nome da empresa esteve praticamente associado a Pokémon. Aqui, porém, temos uma equipe tentando construir um RPG de ação mais cinematográfico.

O combate é baseado em precisão. A narrativa é mais séria e o mundo é completamente original.

Mesmo com seus problemas, existe algo bastante interessante em ver esse estúdio tentando sair da sua zona de conforto.

O jogo não parece perfeito. Algumas decisões poderiam ser melhor executadas, principalmente quando falamos sobre a variedade dos inimigos e a repetição de determinados padrões durante alguns confrontos.

Por outro lado, ele possui personalidade.

E, em um mercado cheio de jogos que acabam parecendo versões diferentes das mesmas ideias, ter personalidade já é algo bastante importante.

Beast of Reincarnation: Depois de aproximadamente 15 horas, Beast of Reincarnation me deixou com uma sensação bastante positiva, mesmo com algumas limitações evidentes. O combate é divertido, a relação entre Emma e Koo funciona muito bem, a ambientação possui uma identidade forte e a trilha sonora consegue criar momentos realmente marcantes. Por outro lado, a falta de variedade de inimigos e a repetição de determinados padrões nos chefes acabam prejudicando um pouco a experiência, principalmente conforme avançamos e começamos a perceber essas repetições com mais facilidade. Também acredito que parte da recepção do jogo tenha sido afetada pelo enorme hype criado em torno da Game Freak finalmente saindo de Pokémon. As expectativas acabaram sendo muito maiores do que aquilo que Beast of Reincarnation realmente se propõe a entregar. E talvez seja justamente aí que esteja a melhor maneira de enxergar o jogo: não como o grande RPG de ação que muitos esperavam, mas como uma experiência própria, com boas ideias, personalidade e alguns pontos que ainda poderiam ser melhor trabalhados. Depois de 15 horas, ainda existe vontade de continuar a jornada, conhecer mais desse mundo e descobrir até onde Emma e Koo podem chegar. Para mim, isso já mostra que a Game Freak conseguiu dar um primeiro passo bastante interessante fora de sua zona de conforto. Beast of Reincarnation está disponível para PlayStation 5, Xbox Series X|S e PC. Paulo Reis

7.5
von 10
2026-08-12T00:26:26+00:00


Paulo Reis

Amante de diversos tipos de jogos, música e filmes formado em administração, e sabe algo de instrumentos.

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