Review | 007 First Light

Publicado por Renan Corsi em

Esta análise aborda a premissa e alguns temas importantes da história, mas evita entregar as principais reviravoltas e o desfecho da campanha.

Depois de mais de uma década sem um novo grande jogo de James Bond, 007 First Light tinha uma missão complicada: não bastava ser um bom jogo de ação. Ele precisava convencer o jogador de que estava, de fato, controlando James Bond.

E é justamente aí que a IO Interactive acerta.

First Light não tenta simplesmente reproduzir uma aventura cinematográfica de 007. O jogo entende que James Bond funciona melhor quando o jogador pode improvisar, observar o ambiente, manipular os inimigos e decidir como uma situação vai se desenrolar. É uma proposta que combina muito bem com o histórico da desenvolvedora em Hitman, mas sem transformar Bond em um Agente 47 de smoking.

Depois de terminar a campanha, minha sensação é de que a IO Interactive encontrou uma fórmula extremamente promissora para a franquia. Há problemas de ritmo, algumas limitações técnicas no PS5 base e momentos em que a inteligência artificial dos inimigos poderia ser muito melhor. Ainda assim, é um jogo que entrega exatamente aquilo que eu esperava de um bom game de 007: espionagem, ação, gadgets, improviso, viagens pelo mundo e, principalmente, a sensação de estar dentro de um filme de James Bond.

Assista ao trailer do jogo para entrar no clima:

PlayStation

Um James Bond antes de ser o James Bond

Uma das decisões mais interessantes de First Light é começar muito antes do Bond que o público conhece.

Aqui, James Bond tem 26 anos, ainda é um integrante da Royal Navy e sequer faz parte da tradicional estrutura do MI6 como o agente que conhecemos. A campanha acompanha justamente sua transformação de recruta impulsivo em agente 00. É uma história original da IO Interactive, e não uma adaptação de nenhum dos filmes.

E isso muda bastante a maneira como enxergamos o personagem.

Esse Bond ainda comete erros. Ele é mais inconsequente, questiona ordens e muitas vezes age antes de pensar. Ao longo da campanha, porém, vamos entendendo de onde nasce a personalidade que associamos ao personagem.

Para mim, essa é uma das maiores qualidades narrativas do jogo. Em vez de começar com um James Bond pronto, a IO Interactive transforma o próprio processo de construção do personagem em parte da aventura.

007 First Light | Reprodução: IO Interactive

A mistura perfeita entre Hitman, ação cinematográfica e espionagem

Era impossível fazer um jogo de 007 na IO Interactive e não existir alguma influência de Hitman. E ela está presente.

A diferença é que a desenvolvedora não simplesmente pegou a estrutura de Hitman e trocou o Agente 47 por James Bond. O DNA está na liberdade de abordagem: infiltração, investigação, interação com o ambiente, disfarces, distrações e improvisação. Ao mesmo tempo, First Light combina isso com sequências muito mais lineares e cinematográficas, próximas de experiências como Uncharted.

É justamente essa mistura que dá identidade ao jogo.

Em determinados momentos, estamos observando uma área, procurando uma maneira discreta de avançar. Pouco depois, tudo explode e o jogo se transforma em um espetáculo de perseguição, tiros e explosões.

Essa alternância poderia ter resultado em uma experiência inconsistente, mas funciona melhor do que eu esperava.

007 First Light | Reprodução: IO Interactive

O combate parece ser repetitivo, mas não é

Essa foi uma das coisas que mais me chamaram atenção enquanto eu jogava.

À primeira vista, First Light pode dar a impressão de possuir um combate relativamente convencional. Temos armas, golpes, esquivas, bloqueios e finalizações. Depois de algumas horas, entretanto, fica evidente que o jogo permite muito mais criatividade do que seu sistema aparentemente simples sugere.

Você pode enfrentar os inimigos no corpo a corpo, usar armas de fogo, utilizar gadgets, desarmar adversários ou transformar o próprio cenário em uma arma.

E é aqui que o combate ganha personalidade.

Um inimigo pode ser jogado contra uma parede, uma bancada, uma estrutura elétrica ou outro elemento do cenário. Também é possível desarmar um adversário e imediatamente pegar sua arma. O sistema procura recompensar o jogador que presta atenção ao que está ao redor, em vez de simplesmente apertar os mesmos botões até a luta terminar. Críticos também destacaram justamente essa capacidade de transformar o ambiente em parte do combate.

Isso explica uma sensação interessante: o combate pode parecer repetitivo na estrutura, mas dificilmente precisa ser repetitivo na execução.

O objetivo normalmente é “elimine esses inimigos”. A maneira como você chega lá é que pode mudar completamente.

007 First Light | Reprodução: IO Interactive

Bond não é apenas um personagem com uma pistola

Talvez essa seja a parte que mais diferencia First Light de muitos jogos anteriores de 007.

James Bond é um agente secreto. A ação é importante, mas a fantasia do personagem também envolve enganar, investigar, observar e improvisar.

O sistema de infiltração social e o Bluff contribuem bastante para isso. Em determinadas situações, Bond consegue convencer pessoas de que pertence a determinado ambiente, utilizar informações coletadas durante a exploração ou encontrar maneiras alternativas de atravessar áreas protegidas. A própria IO Interactive descreve o jogo como uma experiência em que o jogador decide superar obstáculos por força bruta, estratégia ou conversa.

Os gadgets também ajudam a reforçar essa identidade.

Relógio, telefone, laser, distrações e outros dispositivos não estão ali apenas para parecerem “coisas de James Bond”. Eles fazem parte da solução dos problemas.

E isso é importante: o jogo não transforma os gadgets em simples habilidades com cooldown. Eles fazem parte da fantasia de espionagem.

007 First Light | Reprodução: IO Interactive

Visualmente bonito, mas 30 FPS “travado”

Visualmente, 007 First Light é um jogo muito bonito.

A IO Interactive conseguiu construir ambientes luxuosos, instalações tecnológicas, hotéis, museus, áreas congeladas e locais exóticos com bastante riqueza visual. A iluminação é especialmente importante para essa apresentação, e o uso de iluminação global baseada em ray tracing por software ajuda a criar ambientes convincentes.

É um daqueles jogos em que frequentemente dá vontade de parar por alguns segundos para observar o cenário.

Porém, no PS5 base, existe uma escolha que considero praticamente obrigatória: modo desempenho.

O console oferece um modo Qualidade a 30 fps e um modo Desempenho mirando 60 fps. A reconstrução de imagem utiliza FSR 3.1.5 fora do PS5 Pro.

O problema é que, depois de experimentar os 60 fps, voltar para os 30 fps do modo Qualidade deixa First Light muito mais pesado.

E eu tive exatamente essa impressão.

Não é necessariamente que 30 fps seja “injogável”. É que o restante da experiência — movimentação, mira, combate, câmera e principalmente transições rápidas — se beneficia demais da fluidez do modo desempenho. Depois de algumas horas a 60 fps, o modo Qualidade simplesmente parece travado.

É uma daquelas situações em que a imagem mais bonita não compensa a resposta mais lenta.

Curiosamente, análises técnicas encontraram justamente esse equilíbrio: o PS5 base consegue manter a experiência de desempenho muito mais fluida, mas precisa fazer concessões relevantes na resolução e na qualidade da imagem.

007 First Light e a trilha sonora

Um jogo de James Bond precisa soar como James Bond.

E First Light entende isso muito bem.

A música-título “First Light”, interpretada por Lana Del Rey e escrita em parceria com David Arnold, ajuda a estabelecer imediatamente a identidade dessa nova versão de Bond. Arnold, responsável por diversas trilhas da era moderna dos filmes, retorna à franquia justamente em uma produção que tenta equilibrar tradição e renovação. A trilha original do jogo é assinada pela dupla The Flight.

Isso cria uma combinação interessante: o jogo respeita a tradição musical de 007 sem parecer preso ao passado.

E a abertura merece atenção especial. A sequência de títulos é tratada como parte importante da identidade do jogo, exatamente como acontece nos filmes.

É difícil jogar aquilo e não pensar: “agora sim, estou jogando um Bond.”

Lana Del Rey

Colecionáveis feitos para fãs da franquia

Eu gostei bastante dos colecionáveis.

Em muitos jogos, coletáveis existem apenas para aumentar artificialmente a duração. Em First Light, eles têm um valor adicional porque ajudam a construir o universo e, principalmente, funcionam como homenagens à franquia.

São 92 colecionáveis, divididos em cartas, arquivos do MI6, lembranças, cartões-postais e itens de legado. Estes últimos são especialmente interessantes porque funcionam como pequenas referências à história de James Bond — incluindo homenagens a diferentes eras dos filmes.

007 First Light | Reprodução: IO Interactive

Isso faz com que a exploração tenha um propósito.

Encontrar uma carta pode ser apenas uma atividade de coleção. Encontrar um item de legado, entretanto, pode provocar aquele momento de reconhecimento de quem conhece a franquia.

É fan service, mas do tipo que funciona.

Inteligência artificial abordada na história de 007 First Light

A temática da inteligência artificial é provavelmente o elemento mais contemporâneo da narrativa.

A história coloca em discussão até que ponto decisões estratégicas podem ser entregues a sistemas capazes de analisar grandes quantidades de informação e prever ameaças. A própria premissa coloca Bond em conflito com uma lógica que tenta transformar tudo em probabilidade e estatística.

E isso funciona porque existe uma oposição muito clara entre dois conceitos:

a máquina que calcula e o homem que improvisa.

Essa ideia conversa diretamente com Bond.

Um computador pode determinar que uma missão possui poucas chances de sucesso. Bond é justamente o personagem que responde: “então vamos tentar”.

Eu não considero a trama perfeita. Alguns personagens e determinados elementos da conspiração poderiam ter sido mais desenvolvidos, e há momentos em que o roteiro fica um pouco previsível. Essa foi uma crítica recorrente em parte da imprensa.

Mas, pessoalmente, achei o conceito suficientemente interessante para sustentar a campanha — principalmente porque a verdadeira história também é a transformação de Bond.

007 First Light | Reprodução: IO Interactive

O verdadeiro destaque da campanha pode ser John Greenway

Aqui está uma das coisas que eu acrescentaria à análise: os personagens secundários merecem mais crédito.

John Greenway, mentor de Bond dentro do MI6, é uma peça importante para a evolução do protagonista. A relação entre os dois funciona justamente porque existe conflito. Greenway não trata Bond como um herói pronto; ele vê um jovem talentoso, impulsivo e difícil de controlar.

007 First Light | Reprodução: IO Interactive

Isso cria uma relação de mentor e aprendiz bastante eficiente.

A imprensa também destacou Greenway como um dos melhores personagens da campanha, justamente pelo modo como o passado dele influencia sua relação com Bond.

Q e Moneypenny também ajudam a construir uma versão própria do universo Bond, ao mesmo tempo em que carregam características reconhecíveis de suas versões cinematográficas.

E isso é importante porque First Light não depende de personagens dos filmes para funcionar. Ele começa a construir sua própria continuidade.

Troféus: uma platina mais amigável do que parece

Essa é outra área em que First Light merece elogios.

A platina é relativamente tranquila. Guias especializados estimam aproximadamente 20 horas e classificam a dificuldade em torno de 2/10. Não há troféus perdíveis na campanha, e a seleção de capítulos permite retornar posteriormente para buscar o que ficou para trás.

A maior parte da limpeza consiste nos 92 colecionáveis e em alguns desafios específicos de combate.

E aí entra o meu troféu “problema”: Eletrizante.

A descrição é simples: fazer com que um inimigo dê um choque em outro inimigo. O problema é que não se trata de algo que você simplesmente ativa quando quiser; é necessário provocar a situação certa e contar com um pouco de timing — ou, como você colocou muito bem, um pouco de sorte.

É exatamente o tipo de troféu que não é difícil porque exige habilidade absurda, mas porque o jogo precisa colaborar.

No conjunto, porém, é uma platina bastante acessível.

Nem tudo é perfeito

A principal crítica que eu faria a First Light está no equilíbrio entre suas boas ideias e alguns momentos em que elas não são exploradas até o limite.

A inteligência artificial dos inimigos pode ser inconsistente. Há situações em que o comportamento dos adversários não acompanha o nível de liberdade que o jogo oferece ao jogador.

Também existe uma questão interessante com o legado de Hitman: a IO Interactive possui ferramentas excelentes para criar espaços sistêmicos e reativos, mas First Light precisa constantemente equilibrá-las com uma narrativa linear e cinematográfica. Quando esses dois lados se encontram, o jogo brilha. Quando não se encontram, fica evidente que algumas situações poderiam ter sido mais abertas.

Ainda assim, eu prefiro que o jogo tenha tentado fazer isso do que ter escolhido o caminho mais seguro de ser apenas um shooter linear.

Vale a pena?

007 First Light: Visualmente bonito, cinematográfico, cheio de referências à franquia e com um sistema de combate muito mais criativo do que parece à primeira vista, o jogo consegue equilibrar ação e espionagem de uma maneira que poucos títulos de 007 conseguiram. A história não é perfeita, mas funciona muito bem como uma nova interpretação da origem do personagem. A discussão sobre inteligência artificial adiciona um elemento contemporâneo, enquanto a relação entre Bond e os personagens do MI6 dá personalidade à campanha. No PS5 base, eu recomendo sem hesitar o modo desempenho. Os 60 fps combinam muito mais com a proposta do jogo, mesmo que isso signifique abrir mão de parte da qualidade visual oferecida pelo modo Qualidade. Os colecionáveis são divertidos, os troféus são tranquilos e as missões oferecem liberdade suficiente para que duas pessoas possam atravessar determinadas situações de maneiras completamente diferentes. E, acima de tudo, existe aquela sensação rara de terminar um jogo e pensar: “Eu realmente me senti como James Bond.” Para mim, isso vale a nota 9/10. – Renan Corsi

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von 10
2026-10-14T13:41:39+00:00

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