Review – End of Abyss

Publicado por Paulo Reis em

Dos mesmos profissionais que trabalharam em Little Nightmares e Little Nightmares II, End of Abyss marca a estreia da Section 9 Interactive, estúdio formado por antigos integrantes da Tarsier Studios. Desta vez, a equipe aposta em uma aventura de ação e terror com perspectiva isométrica, exploração e combates em uma instalação subterrânea repleta de criaturas grotescas e mistérios.

No controle de Cel, uma jovem técnica de combate, precisamos investigar ambientes abandonados, enfrentar ameaças e descobrir os segredos desse lugar. Com uma atmosfera sombria e uma narrativa cercada de mistérios, End of Abyss busca entregar uma experiência marcante. Mas será que consegue cumprir essa promessa?

História

Em End of Abyss, a narrativa segue uma abordagem que prioriza a interpretação do jogador em vez de entregar todas as respostas de maneira explícita. Por meio de documentos encontrados durante a exploração, detalhes presentes nos cenários e elementos espalhados pelo ambiente, o jogo constrói sua história aos poucos, deixando pistas sobre os acontecimentos e os mistérios que envolvem aquele lugar. É uma fórmula que remete a títulos como Little Nightmares, nos quais boa parte da narrativa está escondida nas entrelinhas e depende da atenção do jogador para ser compreendida.

Essa escolha dá espaço para diferentes interpretações e incentiva o jogador a observar cuidadosamente o que está ao seu redor, relacionando informações e tentando compreender o que realmente aconteceu. Em vez de explicar cada acontecimento, End of Abyss confia na capacidade do público de montar esse quebra-cabeça narrativo, tornando a exploração uma parte importante da experiência.

Por outro lado, essa abordagem também pode afastar jogadores que preferem narrativas mais diretas, com explicações claras sobre os acontecimentos e seus personagens. Em determinados momentos, a falta de respostas concretas pode gerar mais dúvidas do que curiosidade, especialmente para quem espera que a história conduza a uma compreensão mais objetiva de seus mistérios. Assim, embora a proposta combine com a atmosfera enigmática do jogo, ela nem sempre consegue encontrar o equilíbrio ideal entre instigar o jogador e mantê-lo envolvido com a narrativa.

Gameplay

A gameplay de End of Abyss combina exploração, combate e gerenciamento de recursos, mas exige certa adaptação aos controles. Durante as primeiras horas, tive dificuldades com a disposição dos comandos e precisei remapear alguns botões para tornar a experiência mais confortável. Em certos momentos, acabei recarregando a arma quando queria atirar e vice-versa, o que gerou algumas frustrações. Ainda assim, conforme me acostumei às mecânicas, os combates se tornaram mais interessantes e divertidos.

O jogo também apresenta leves toques de soulslike, principalmente no gerenciamento de munição. Enquanto a arma básica possui balas infinitas, as armas adicionais dependem de recursos limitados, exigindo estratégia na hora de utilizá-las. Minha recomendação é guardar essas munições para os confrontos mais difíceis, especialmente as batalhas contra chefes.

Outro ponto positivo é a exploração, que recompensa o jogador com armas, documentos e recursos importantes para a progressão. Vasculhar os cenários e procurar caminhos alternativos torna a jornada mais interessante, incentiva a curiosidade e contribui tanto para a sobrevivência quanto para a compreensão daquele universo.

Infelizmente, nem tudo funciona tão bem. O mapa representa um dos aspectos que mais me incomodaram durante a jornada. Em determinados momentos, sua organização dificulta a compreensão dos caminhos e acaba deixando o jogador mais perdido do que deveria. Esse problema pesa especialmente quando comparamos o jogo a outros títulos do gênero metroidvania, nos quais o constante retorno a áreas já visitadas faz parte da experiência, mas a estrutura dos cenários costuma ajudar a identificar passagens e reconhecer caminhos que ainda precisam ser explorados. Em End of Abyss, essa orientação nem sempre funciona como deveria, tornando alguns trechos mais confusos e prejudicando o ritmo da exploração.

No fim, End of Abyss oferece uma gameplay que consegue divertir e recompensar a curiosidade, mas também apresenta algumas arestas que impedem a experiência de alcançar todo o seu potencial. Entre a necessidade de adaptação aos controles, o gerenciamento estratégico de munição e as recompensas pela exploração, há boas ideias que funcionam na prática. Entretanto, a confusão provocada pelo mapa e certas frustrações durante os combates mostram que nem todas as decisões de design acertam em cheio.

Direção Artistica e Gráficos

Um dos grandes destaques de End of Abyss é sua direção de arte. Quem conhece Little Nightmares encontrará semelhanças no uso do grotesco, nas criaturas perturbadoras e nos ambientes sombrios. Mesmo seguindo uma proposta visual diferente, o jogo preserva características que despertam desconforto e curiosidade durante a exploração.

O design dos monstros merece elogios pela criatividade e variedade. Os chefes também apresentam visuais interessantes, embora alguns tenham me impressionado menos. Ainda assim, a maioria contribui para a atmosfera de terror e reforça a identidade do jogo.

Os cenários complementam esse trabalho com ambientes escuros, iluminação marcante e detalhes que despertam a curiosidade do jogador. Além de criar tensão, esses elementos ajudam a contar a história por meio do próprio ambiente, incentivando a observação durante a exploração.

Considerando que a Section 9 Interactive está no início de sua trajetória, o resultado é bastante positivo. A equipe demonstra personalidade artística e criatividade na construção desse universo. Apesar de algumas inconsistências, End of Abyss apresenta uma identidade visual marcante e mostra que o estúdio tem potencial para entregar projetos ainda mais ambiciosos no futuro.

Um começo promissor

No fim das contas, End of Abyss é uma experiência que, apesar de algumas limitações, consegue demonstrar o potencial de uma equipe que ainda tem muito a oferecer à indústria. Sua atmosfera sombria, o design grotesco das criaturas e a proposta de contar uma história por meio de documentos, cenários e pequenos detalhes mostram que existe uma identidade artística por trás do projeto. Mesmo quando a narrativa deixa perguntas sem respostas ou a exploração esbarra em um mapa pouco intuitivo, o jogo encontra maneiras de despertar a curiosidade e incentivar o jogador a seguir em frente.

É justamente nessa combinação de mistério e descoberta que End of Abyss encontra parte de sua força. Assim como o próprio jogador precisa reunir pistas para compreender o mundo ao seu redor, a Section 9 Interactive parece estar dando seus primeiros passos na construção de uma identidade própria. Nem todas as ideias funcionam como deveriam, e algumas escolhas de design provocam frustrações que poderiam ter recebido mais atenção durante o desenvolvimento. Ainda assim, há boas ideias aqui, especialmente na maneira como o jogo recompensa a exploração e utiliza sua direção de arte para construir um universo perturbador.

Mais do que entregar uma experiência perfeita, End of Abyss deixa a impressão de que estamos diante de um estúdio com potencial para evoluir. Os problemas encontrados ao longo da jornada não apagam os méritos do projeto, mas mostram onde futuros trabalhos podem melhorar, seja no refinamento dos controles, na orientação dos cenários ou na maneira de conduzir sua narrativa. Se a equipe conseguir preservar a criatividade demonstrada aqui e aprimorar esses aspectos, temos motivos para olhar com interesse para seus próximos projetos.

End of Abyss pode não alcançar todo o potencial de suas próprias ideias, mas entrega uma aventura que merece ser reconhecida pelo que acerta e pelo caminho que começa a construir. E, se este é apenas o primeiro passo da Section 9 Interactive, fica a expectativa de que seus próximos jogos tragam experiências ainda mais maduras, ambiciosas e marcantes.

End of Abyss: *End of Abyss* entrega uma aventura de ação e terror marcada por uma atmosfera sombria, criaturas grotescas e uma narrativa repleta de mistérios que exigem a atenção do jogador. A exploração recompensa a curiosidade, enquanto o gerenciamento de munição acrescenta tensão aos combates. Entretanto, controles pouco intuitivos e um mapa confuso provocam algumas frustrações ao longo da jornada. Apesar dessas limitações, o jogo demonstra o potencial da Section 9 Interactive e deixa boas expectativas para os próximos projetos do estúdio. – Paulo Reis

7
von 10
2026-10-24T12:41:33+00:00

Paulo Reis

Amante de diversos tipos de jogos, música e filmes formado em administração, e sabe algo de instrumentos.

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